
Experimente procurar "Missing Madeleine" no site de buscas Google. Você encontrará, surpreso, 1.980.000 resultados! Os jornais brasileiros têm noticiado o desaparecimento da menina Madeleine com discrição, mas no mundo inteiro o assunto virou destaque diário.
O jornal francês Le Monde em matéria de 15/09/07 afirma: "O caso Madeleine: Todos os ingredientes para fascinar o público e a mídia". O Guardian de Londres afirma que o caso Madeleine suscitou no Reino Unido uma emoção popular sem precedentes desde a morte há dez anos da princesa Diane. Em alguns sites como o sverdades.blogspot.com o número de acessos é de 48.673 de 134 países. O número de brasileiros (5.649) só é superado pelos portugueses (19.344). A Inglaterra está em terceiro lugar com 3.169 acessos.
Após mais de quatro meses do seu desaparecimento, as notícias sobre a menina Madeleine ocupam um imenso espaço na mídia. Seus pais Kate e Gerry, ambos médicos, foram considerados pelo Le Monde de "o casal comum mais fotografado do século atual".
O casal procurou a mídia para uma milionária campanha com o objetivo de encontrar sua filha.
Personalidades de destaque e empresários estão doando importâncias fantásticas. Uma colega de Kate doou 100 mil libras (cerca de 500 mil reais). Um milionário que vive em Mônaco ofereceu 1 milhão de libras (cerca de 5 milhões de reais) por informações sobre o paradeiro de Madeleine.
Madeleine, então com três anos, foi deixada por seus pais, ao que afirmam, dormindo junto com seus dois irmãos gêmeos de dois anos de idade, em um apartamento térreo de um hotel na praia da Luz, no Algarve, Portugal. Foram jantar com amigos em um restaurante próximo e ao voltar não encontraram Madeleine. Ela havia desaparecido. A janela e a porta do quarto estavam abertas. Os pais estavam com um aparelho de escuta ligado no quarto, mas nada ouviram.
Ninguém sabe ainda com certeza o que aconteceu. (Talvez somente os pais, suspeitam muitos.) Seja lá o que for que tenha ocorrido, uma coisa é certa: deixar crianças de baixa idade sozinhas sem supervisão em um quarto de hotel constitui-se em uma clara situação de negligência por parte dos pais. Crianças deixadas sós podem cair de janelas, sofrer acidentes, ingerir , por exemplo, medicamentos dos pais, brincar perigosamente com fogo ou com gás. (Todas essas possibilidades citadas são situações que já presenciei como médico.)
Crianças podem ser raptadas pela internet, na saída da escola, na praia, em supermercados, em praças, durante eventos ou festas. Às vezes, elas fogem de casa (as maiores) e às vezes são achadas pelos SOS Crianças Desaparecidas espalhados em todos os países. (No Rio de Janeiro atende pelo telefone (21)2286-8337 ou (21)2579-2153). Às vezes crianças ingênuas, desinformadas dos riscos, ou deixadas sós são raptadas por pedófilos ou por psicopatas. A situação é bem conhecida . A literatura e os sites abordam com prioridade a questão da segurança infantil e da responsabilidade dos pais. Ou seja, o desaparecimento de crianças é um fenômeno bem conhecido e freqüente em todo o mundo.
Como então admitir que os pais de Madeleine, profissionais de nível superior, morando num país onde inúmeras instituições se dedicam à questão da segurança infantil através de companhas públicas em nível nacional e de inúmeros telefones gratuitos, pudessem desconhecer regras básicas, como esta de não deixar crianças sozinhas sem qualquer supervisão, enquanto vão jantar em um restaurante?
Não há dúvidas, no meu entender, que essas três crianças foram negligenciadas pelos próprios pais. Uma, Madeleine, desapareceu. Através de cartas e e-mails são levantadas hipóteses que vão de rapto por estranhos até a morte acidental causada pelos próprios pais. Alguns consideram o que está ocorrendo na mídia uma histeria coletiva, outros pensam que isso só ocorre porque Madeleine é "inglesa, branca e filha de doutores", ainda outros consideram que as prioridades estão sendo desfocadas através de uma enorme e milionária mobilização.
Nós aqui, de longe, vamos torcer para que Madeleine seja encontrada viva. Mas muito importante é que todo o caso sirva de exemplo para o mundo - crianças pequenas não podem ser deixadas sozinhas, sem supervisão. E não nos esqueçamos que além de Madeleine há milhares de crianças desaparecidas em todo o mundo, inclusive no Brasil, (aqui 40 mil crianças e adolescentes desaparecem por ano) crianças que continuam desaparecidas por falta de campanhas, falta de recursos para divulgação intensa de fotos e sobretudo por falta de prioridade por parte dos governos que pouco investem nos raros, resistentes e heróicos serviços de localização de crianças existentes no Brasil.
Lauro Monteiro
Editor

