Outras Entrevistas

CRACK - "Internação compulsória é caminho a ser percorrido"

Entrevista de Dr. Dráuzio Varella à jornalista Cláudia Collucci, publicada na Folha de São Paulo, em 28/01/2013. O Observatório da Infância endossa a opinião do médico Dráuzio Varela sobre o atendimento compulsório aos dependentes de drogas. leia mais

Fórum do STJ (Superior Tribunal de Justiça) debate o tema Pedofilia

O Observatório da Infância reproduz aqui a entrevista sobre pedofilia com o Dr. Elias Abdalla, psiquiatra forense e a Dra. Selma Sauerbronn, promotora de Justiça da Infância e da Juventude do DF que foi ao ar na TV Justiça no programa Fórum. Trata-se de uma excelente entrevista que busca distinguir bem várias facetas da pedofilia e do abuso sexual contra crianças, facetas geralmente desconhecidas pelo público em geral e sobretudo pela mídia. É imperdível. leia mais

Disque-Denúncia necessita de maior capacitação de profissionais

Criador do primeiro telefone nacional gratuito de denúncia anônima contra casos de abuso sexual infantojuvenil, o pediatra Lauro Monteiro atua há quase 30 anos na defesa dos direitos da criança e do adolescente. Fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia) e atual editor do site Observatório da Infância, Lauro participou da equipe que ajudou a elaborar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). leia mais

Ninguém mata na 1ª agressão, diz pediatra.

Entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo, em 28 de abril de 2008. Por Antônio Gois, da Sucursal do Rio. Para o médico Lauro Monteiro, se o casal Nardoni matou Isabella, como diz a polícia, a menina já teria sido vítima de agressão em outras ocasiões. Profissionais de educação, de saúde ou vizinhos devem estar atentos a hematomas ou queimaduras no corpo da criança, diz Monteiro Filho. Para o pediatra Lauro Monteiro Filho, fundador da Abrapia (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência) e hoje editor do Observatório da Infância, a sociedade brasileira ainda passa pela fase da negação da realidade de que os pais podem, sim, ser os principais agressores dos próprios filhos. Foi a Abrapia que criou o primeiro telefone nacional gratuito de denúncia anônima contra casos de abuso sexual infantil. leia mais

Entrevistas

"Depois de 4 anos, a escola não recupera mais"


É enorme a importância da educação infantil na escola e antes de tudo em casa. É essa a lição que nos é dada através da entrevista de Aloísio Araújo, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), feita ao O Globo em 13/12/09. Vamos reproduzí-la. (Foto: Gabriel de Paiva / O Globo)

Pesquisador defende investimentos na educação infantil, especialmente nos primeiros anos de vida das crianças

O economista, professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Aloísio Araújo defende investimentos na educação infantil, especialmente nos primeiros anos de vida, quando se forma o cérebro das crianças.

O motivo é simples: meninos e meninas que recebem mais estímulos cognitivos até os 4 anos de idade chegam à escola em melhores condições de aprender. O inverso também é verdadeiro e, segundo ele, explica o fosso que separa estudantes brasileiros antes mesmo de pisarem na sala de aula.

Araújo está à frente de um seminário internacional que vai discutir o assunto na quinta e sexta-feira, na FGV do Rio, com a presença de nove pesquisadores estrangeiros, um deles James Heckman, que ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2000. A seguir, os principais trechos da entrevista

Demétrio Weber


Por que o senhor considera a educação infantil tão importante?

ARAÚJO: Do ponto de vista de neurociência, porque o cérebro se forma muito cedo. Então, se a criança não recebe certos estímulos nessa fase em que se estabelecem certas conexões neuronais, ela dificilmente vai recuperar isso depois.
Através de medições e imagens mais modernas, fica claro que é difícil que essa criança atinja o mesmo nível de uma outra que foi submetida aos estímulos adequados.

Que tipo de estímulos?

ARAÚJO: A criança que vem de um lar em que os pais são educados, leem em voz alta, dão estímulos lógicos e usam um vocabulário amplo, está muito mais preparada quando chega à escola do que uma criança que tem os pais analfabetos, poucos recursos em casa, não tem jogos, brinquedos. Isso é medido num trabalho do (James) Heckman e do Flávio Cunha: com 1 ano de idade, as diferenças são muito pequenas. Aos 4 anos, muito grandes, dependendo do nível de renda.

A escola consegue reverter essa diferença mais tarde?

ARAÚJO: Depois dos 4 anos, o sistema educacional não recupera mais. As diferenças que existem por educação da mãe ou faixa de renda não são mais reversíveis.

O senhor está falando de estímulos, então, que teriam que ser dados nas creches.

ARAÚJO: Não necessariamente todo mundo vai à creche. Isso pode ser feito dentro de casa também. Se esses estímulos são feitos dentro de casa, por uma mãe que dedica muitas horas à criança, pais que leem em voz alta, se há muitos brinquedos que estimulam o desenvolvimento cerebral, essa criança se prepara melhor e já chega à escola em condições muito mais favorecidas. Se não se fizer essa intervenção mais cedo, as diferenças não diminuem.

Como isso afeta o Brasil?

ARAÚJO: O Brasil tem um número muito grande de crianças que vêm de famílias com baixa escolarização da mãe, dos pais em geral, e com baixo nível de renda. A mãe é mais relevante, porque geralmente passa mais horas com as crianças. Então, fica muito difícil para o sistema escolar recuperar essa defasagem depois. Esse é o desafio maior no Brasil. Um país como o nosso deve dar mais atenção a essas intervenções precoces.

Essa faixa etária antecede o período escolar. Como se faz isso, já que muitas dessas crianças não estão na creche por opção dos pais?

ARAÚJO: Esse é o desafio. Essas observações valem para crianças também de 4, 5 anos. Porque não tem uma idade precisa até ali. Depois de sete, oito anos, já começa a ficar muito tardio. Um dos objetivos do seminário é dizer que temos que pesquisar para saber como fazer essas intervenções da forma mais adequada possível.

Numa idade tão precoce, então, não basta melhorar a escola. É preciso chegar à família.

ARAÚJO: Exatamente. Tem várias técnicas, várias propostas diferentes. Alguns especialistas, como o professor Heckman, fazem experiências para ver qual a idade, quantas horas, se você deixa a criança em casa e vai uma pessoa na casa ou se você leva a criança algumas horas por dia num centro, enfim, qual o método mais adequado. Um dos palestrantes vai falar que se deve estimular mais o sentimento, o que os economistas chamam de habilidades não cognitivas: a perseverança, a disciplina. Ou se é o caso de se estimular mais a descoberta, a inteligência, a criatividade. São várias experiências feitas isoladamente nos EUA com crianças em idade muito precoce e que foram acompanhadas ao longo de décadas. É preciso dizer: não existem fórmulas prontas para a intervenção precoce.

Combater a pobreza ajuda a melhorar a educação?

ARAÚJO: Sim, mas combater a pobreza é um método muito indireto, que toma mais tempo.
Acho que deve haver programas mais imediatos. Porque o fator chave (no caso da pobreza) é o nível de escolarização dos pais e você tem que olhar as crianças que estão ali.

O senhor daria um exemplo?

ARAÚJO: Um exemplo é Cuba, que tem uma intervenção muito precoce. Um dos palestrantes vai falar que o investimento infantil em Cuba é muito maior do que no resto da América Latina. E (o país) tem uma performance muito melhor. É difícil estabelecer uma relação direta, mas a performance de Cuba nesses testes internacionais é do nível da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), acima da América Latina. Uma das possíveis explicações seria essa: que existem investimentos educacionais semelhantes para a faixa depois dos 7 anos, mas, na faixa anterior, o investimento de Cuba é muito maior. Outro exemplo é os Estados Unidos, que têm experiências isoladas.

O Congresso acaba de aprovar a obrigatoriedade do ensino dos 4 aos 17 anos. No ano que vem, já será a partir dos 6 para todas as crianças. O senhor acha que a creche também deveria ser obrigatória?

ARAÚJO: Não. Talvez só para quem recebe o Bolsa Família.

Isso exigiria a ampliação de vagas nas creches públicas.

ARAÚJO: Acho que deve existir a disponibilidade para famílias de alto risco. Porque está provado que a escolarização da mãe está muito associada à renda. Tem também um lado psicológico. Se você tira a criança do convívio da mãe, pode criar problemas. Tem que respeitar o convívio com a mãe, a emotividade, a afetividade com a mãe. Tirar totalmente e tentar educar só o cérebro não funciona. Tem que haver um equilíbrio.

Crianças que chegam à escola aos 7 anos com defasagem são capazes de aprender, concluir a educação básica e ir para a universidade?

ARAÚJO: Pode ter exemplos de crianças nessas condições que chegaram até o doutorado. Mas, na média, fica muito mais difícil. É quase improvável que essa criança evolua.

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